Fashion TV Mariana Rachel Roncoletta

Stylist, produtor ou editor de moda?

Durante uma semana de moda, como o SPFW, não são apenas os designers e suas criações ou as modelos que ganham destaque. Atrás de cada desfile há um time de profissionais trabalhando intensamente para que os lançamentos encantem os compradores, o público e a mídia.

Os stylists são alguns destes especialistas. O termo chegou ao Brasil na década de 1990 para designar os já experientes produtores de moda. Devido à dinâmica do setor, esta função cresceu em importância e ganhou novas feições. No entanto, de lá para cá, vivemos uma confusão de terminologias e funções.

O stylist é um criador de imagens de moda: pessoais, fotográficas ou em movimento. Em desfiles, como os do SPFW, ele interpreta tendências e as afina com a assinatura da marca, utilizando diversos recursos: o casting de modelos, a trilha sonora, a edição de looks, a coreografia e a ambientação cenográfica. O trabalho é em equipe, sempre!

Ah! O resultado desta criação é o que se chama de styling.

Já os produtores de moda são conhecidos como “sacoleiros fashion”, por carregarem, literalmente, sacolas e mais sacolas de roupas. São eles que descolam aquelas peças que o stylist tanto precisa para montar o look perfeito. Sem este trabalho, o conceito da coleção ou do editorial se desfaz.

E os editores? São profissionais altamente especializados, assim como os stylists. Precisam ter um repertório que permeia o design, as artes, a música, conhecimento técnico em fotografia e efeitos visuais. Devem saber identificar tendências comportamentais e de moda, conhecer o mundo das celebridades, localizar novos talentos, buscar o inusitado, e ainda, desenvolver imagens surpreendentes. São anos de treinamento, pesquisa e estudo.

Então, caro leitor, o stylist e o editor de moda possuem a mesma função prática?

Sim, porém, o editor, além de ser um termo mais utilizado no mercado impresso do que nas mídias digitais e nos desfiles, sugere que, ele é o responsável somente pela edição dos looks de moda. Já o termo stylist nos induz a interpretar sobre uma maior abrangência, e por isso, o adotamos.

 

Mariana Rachel Roncoletta
blog.anhembi.br
publicado originalmente em 26/01/2009.

Referência: RONCOLETTA, Mariana Rachel e BARROS, Yara. “O poder do styling nos desfiles do SPFW”. TCC de Pós-Graduação em Jornalismo de Moda – UAM, 2007.
Créditos da Imagem: Fashion TV Brasil com Barbara Thomaz. Foto: Vladi. Styling: Mariana Rachel Roncoletta. Produção: Denise Matsuzaki. Beauty: Vanessa Rozan by MAC.

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O que Haten e Fraga têm em comum?

Terminamos a enlouquecida semana de moda do SPFW, entre os desfiles apresentados selecionamos 2 que mais nos emocionaram pelo viés do styling. Explicarei: Sabe aquela apresentação que te faz cair da cadeira? Ou quando você, caro espectador, tem que levantar do confortável sofá da sala (parafraseando Rosane Preciosa) para conseguir respirar e dizer UUUAAAU, o que foi isso?! Quando seu corpo inteiro está arrepiado, um nó seco atravessa sua garganta e ainda seus olhos estão mareados de tanto encantamento.Então, são destes espetáculos que falo. Com lágrimas rolando pelo meu rosto (apesar de quase 20 anos de profissão, achando que poucas coisas ainda poderiam me surpreender tão intensamente) tenho muito orgulho de emocionada apresentá-los: FH e Ronaldo Fraga.

Rupturas de FH
Foi o primeiro desfile da temporada de inverno 2009. A marca FH do designer Fause Haten, tinha a trilha-sonora ao vivo executado pela Orquestra Sinfônica de Heliópolis que já me arrepiou.

A coleção foi dividida claramente pelo stylist Paulo Martinez em 3 momentos: Amores Sofridos, Turbulentos e Calmos relataram o ressurgimento do designer. Da passarela simples, toda forrada de preto, apenas com o logo FH em dourado, adentrou a primeira modelo num look composto de materiais sedutores como a seda e o cetim, em tons de vinho, roxo e com aplicações de dourado. Apesar do amor ser sofrido, ele nos foi muito sedutor e necessário para das cinzas, como uma Fênix, se reerguer.

Na seqüência, os tons escuros de marrom e marinho e as proporções mais justas ao corpo predominaram o primeiro momento do desfile. Alguns looks são pontuados por golas rufo violeta e vermelho que poeticamente pesadas sugerem o sufoco da própria história do designer.

Túnicas volumosas sobrevoaram em harmonia à passarela look a look no bloco turbulentos. O vermelho sangue predomina o catwalk nos deixando em estado de alerta. Chega de sofrimento e turbulências, pedimos angustiados!

É a vez do alívio e bruscamente o vermelho inquietante é substituído por flores em tons pasteis aplicadas no maiô. São os amores calmos, terceiro momento do desfile que segundo Paulo foram propostos um a um, em sua singularidade. Não existe mais uma passagem entre um look e outro, mas sim, uma quebra de proporções e rítmos. Cada modelo veste uma silhueta. “São nossas noivas”, comenta o stylist e assim pronto para traçar outro caminho Fause Haten se despede da passarela entre rosas vermelhas.

O tempo poético de Ronaldo Fraga
Neste desfile encantador sentei ao lado de Cris Mesquita, coordenadora do curso de Pós-Graduação em Styling de Moda do SENAC e foi minha orientadora na Pós de Jornalismo de Moda da Anhembi Morumbi quando abordamos … adivinhem o assunto, caros leitores: O poder do styling. O que este fato tem a ver com o impacto do desfile?

Muito!
1º) Não ficamos imunes ao que acontece ao nosso redor enquanto o desfile rola. A leitura atenta do reelese me informou, os comentários antes e durante o espetáculo com a Cris influenciou, a cenografia já me envolveu e a trilha-sonora já me acolheu.

2º) O backstage (bastidores) também já me alimentou de informações. Conversamos com o beauty-artist, vimos o casting, falamos com os modelos. O Moda Brasil + Design também entrevistou Ronaldo antes do show e ao ser questionado sobre tendências de moda, ele acredita que o caminho é a humanização e eu concordo totalmente. Falou que vê e acompanha tendências de moda para realizar um trabalho que possa ser adquirido mundo afora. Reforçou o consumo consciente, aspectos eco-sutentáveis, questões sociais e ainda perguntou aos jornalistas que lhe cercavam: quais são os nossos reais valores como seres humanos?

Já influenciada por todos estes aspectos e n mais, vamos ao desfile:

A poética de Ronaldo Fraga não é linear, não consigo dividir o styling do desfile em blocos ou camadas didáticas, assim como seu processo de criação que propõe diversos cruzamentos conceituais é a apresentação do espetáculo, composta: pela discussão entre o bonito e o feio, pelo questionamento dos nossos reais valores, pela sensação de abandono e desamparo, pela peça teatral “Tudo é risco de giz” de Álvaro Apocalypse.

Neste espetáculo, as diversas texturas se entrelaçam sem hierarquia: a pele da criança encontra com a pele envelhecida; as lãs com as sedas; as rígidas bolsas-lousa com as estruturas orgânicas dos vestidos, o risco com o rabisco.

As crianças que entram pulando e às vezes intimidadas tiram sorrisos suaves da platéia, enquanto os senhores e senhoras arrancam aplausos enlouquecidos. Cris e eu comentamos: alguns jornalistas vão se irritar com tantos aplausos. Público e personagens de Fraga já respiram juntos encantados quando…

Da trilha-sonora suave e lúdica, surge a doce criança Michael Jackson em seus tempos de Jackson Five cantando Happy. “É o jovem mais velho…” Cris, sussurra ao meu ouvido. Recordo da entrevista com Ronaldo, mais precisamente da pergunta sobre nossos valores, e um turbilhão de questões sócio-culturais sobrevoam minha cabeça…sou atravessada pelo styling; não consigo mais segurar minha tensão, as lágrimas rolam para chão.

O desfile continua, e docemente o piano e ruídos das portas que se abrem nos envolvem, ouvimos o poema: rato que eu não sou assim de fino trato… Ao termino nos perguntamos o que nos faz bem, felizes? Quantas e quais portas a moda de Ronaldo nos abre. Quais contratos queremos selar para nossas vidas?

Assim peço a eles e suas equipes que continuem maravilhosos…

O público formado por jornalistas (às vezes blasé), representantes da marca e apenas alguns amigos (o evento é um espaço de trabalho, relembro, muito trabalho) não resistiu as histórias destes grandes criadores, e aos prantos fomos dar-lhes os parabéns nos bastidores.

Aos criadores: Felicidades, e mais uma vez, Obrigada por dividirem corajosamente suas emoções conosco, nos atravessar e esburacar nossas almas.

Aos leitores: Muito Obrigada!

Mariana Rachel Roncoletta
blog.anhembi.br

publicado originalmente em 26/01/2009.